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sábado, 9 de agosto de 2008

Frustração - Capítulo I

- Cadê o Jocélio?

Estávamos sentados num banco da Praça Tiradentes, num dia cinzento e frio, com as folhas a respingar ao vento a água da chuva que há cinco dias não pára. Ônibus intermunicipais passavam por nós a cada 10 minutos, mas se quer percebemos que o relógio continuava a somar. Minutos antes de perceber que fiquei atônito, recebi uma espécie de anti-simetria poética, palavras de Jocélio que diziam:

- Lembrou de mim, ou de você em seu nobre egoísmo sintetizado, fóbico e nostálgico?
- Não, - Orei, e refleti de cabeça baixa tentando focar minha vista em algo realmente concreto para que eu de algum modo encontrasse as palavras certas pra dizer o que sinto. - eu apenas não sei transfigurar o que sinto em todo este... Cadê o Jocé....

Hoje, acordei às 5 da manhã, e como quem bêbado de sono acorda, procurei, em princípio o meu celular na gaveta da cômoda, e toda vez que faço isso, ahhh, como eu odeio celular, sempre penso na escravidão que sinto de procurar por pessoas que não me ligam. - Por onde andava o Jocélio? – Talvez, no mercado, trabalhando que nem um condenado, para cumprir o que me prometera há quase quatro anos.

- Se ao menos eu tentasse justificar meus pensamentos vazios!

No quarto, à meia-luz que estava ofuscado pelo nublado lá fora, algo de trágico estaria por acontecer, - Não, eu não acredito nisso. - Algo de trágico acontecer, não desvirtue nada, Menelau... rsrsrs - Mas que merda! Garanto que se minha mãe ouvisse isto, eu estaria de castigo no milho. - Meia dúzia de pensamentos pode não me trazer idéias - Será que vou pra aula, hoje? - Estou com vontade de comer pão com ovo.

- Cheguei!
- Jocélio?
- Quem mais poderia ser?
- Mmmm, estive pensando.
- Sobre?
- Coisas, o que vou fazer no meu dia. E você, muito trabalho, hoje?
- O que eu tenho feito de trabalho não me dá tempo pra pensar.
- Talvez, não pensar ti faz mais feliz que eu.
- Estou cansado, tem algo pra comer, Menelau?
- Nada, não consegui fazer nada...Vou pra aula.

Eu queria ficar mais, mas - Droga! - é mais uma situação daquelas que não tenho agüentado. É como um jogo, um sempre querendo ganhar do outro, mas ambos terminam antes de tudo virar tragédia. Chego à aula, encontro o mesmo 'colégio' de sempre.

- Guriaaa, sim, Sim... Nós vamos assistir Chico Buarque cantar aquela música. Sabe qual? nãnãnã... 'Finjo que estão me vendo, Eu preciso me mostrar bonita'. Lembrei: A Mais Bonita. Hauhauhauhauhauhauhauhau
- Mmm. Sério, guria? Mas eu não tenho dinheiro agora, mas se eu tivesse, claro que, não ia perder sua companhia, e esse show que é tudo, né? Hehehe

A cena um é sempre igual, são palavras demais para o meu ouvido. As coisas não são tão normais quanto - O que tem feito Jocélio? - costumavam ser mais reais, estou fugindo demais.

Sala muito retangular, professor em uma fantasia disciplinar militante, conheço este sotaque da serra gaúcha, mas o que me incomoda é o azul e o branco desta sala, as pessoas em pose sarcástica, e este quadro negro, que muito verde cheio de quadradinhos me deixa mais quadrado, eu, de repente afundado nesta cadeira gigante que não me deixa fugir.

- Este ramo, meus caros, a comunicação que vocês procuram para a vida de vocês, é puro mito. Ser um jornalista é um mito ampliado pela histórica ditadura deste país. E, é por isto que a desregulamentação do curso irá acontecer.

Meus pensamentos, ou melhor, meu cérebro, tem feito algo parecido com meu estômago quando tenho ânsia - Será que ele sabe do que está falando? - Eu tenho até medo de perguntar a justificativa para tal argumento. Aff.

- Menelau, você que é um cara bem vivido, bonito, inteligente, e 100% estudante - senti um ironia no discurso popular - o que ti faz pensar ser melhor?
- Nada.
- Explane o nada.
- Se você justificar o que o mito tem a ver com a ditadura, eu poderei continuar a fala.
- Entendi.
- O que você entendeu?
- Você se acha muito bem situado como um estudante aplicado e bem informado.
- Você nunca conclui seu pensamento, ou tenho que desvendar isto também?
- Fique à vontade, piá.
- Acho que sua ignorância não permite...
- O que disse, não escutei. Quietos, classe, quero ouvir seu colega!
- Disse que certas coisas não devem, por merecimento, serem respondidas.
- Garanto que sua burrice também não. Pra que time torce?
- Sou coxa-branca.
- Veja só, conclui meu raciocínio, Sr. Menelau.
- Certo.

Realmente estou cansado de política. Encontro-me distante da minha autenticidade, minha necessidade natural. O fato social me agride de modo que fico humilhado. Talvez, o Jocélio - Que bobagem! Jocélio só me tira a atenção, ele se quer conhece a si mesmo, nunca me escuta, eu falo tanto, e que tipo de pessoa não consome minhas idéias assim, tão visíveis?! - esteja certo.

Saudade do mar azul de abril lá em Guaraparí, o azul do céu parece com o do mar, mesmo com a água marrom, trazendo e levando as conchas - as fotos daquela última visita à praia ficaram ótimas - e os barcos simples com os trajetos entre as ondas, dando alerta do limite permitido para pesca. Jocélio não entende isso, nem se fossemos de novo, ele gosta de surfar desde o sol nascente, até quando no crepúsculo temos que correr para não perder a carona de volta a Curitiba. Num dia igual a esse, depois do almoço, quando nós dois estávamos na caçamba de um saveiro, ele disse:

- Você é triste, Menelau!
- Eu gosto da minha tristeza.
- Não deveria, a natureza está aí, devia curtir mais a vida.
- Eu sei o que entendo por vida, assim como você.
- É?
- Existe uma explicação pra isto, é muito amplo falar sobre isso, mas logo definirei pra você.
- Ti conheço há quase quatro anos. Tenho que admitir que você tenha sido a minha cabeça pra muita coisa, Menelau.

Continua...

1 comentários:

christy disse...

nossa!!! gostei....acho que às vezes o mundo é isso mesmo...Menelau o coomprende e aé sua frustração...sentimento compratilhado por muitos...
já tô esperando a continuação..
bjs ânderson